sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Enuma Elish - O Mito de Criação Mesopotâmico

 Origens

O Enuma Elish, ou As Sete Tábuas da Criação, como é chamado o Mito Mesopotâmico da Criação consiste de sete tábuas de argila gravadas com escrita cuneiforme que foram encontradas nas ruínas da biblioteca de Assurbanípal na cidade de Nínive. Embora várias partes do texto estejam danificadas e a narração esteja repleta de lacunas, elas podem ser preenchidas com informações de outras fontes para completar o mito.

Tradução do Enuma Elish para o português a partir da tradução para o inglês de  W.G. Lambert:

Das civilizações que floresceram na região da Mesopotâmia durante o período histórico, a Suméria foi a primeira e mais antiga. Os mitos escritos mais antigos conhecidos são os sumérios e deve-se levar em conta que eles eram inspirados nas tradições passas oralmente de geração em geração, logo, as origens dessa mitologia ancestral estão perdidas em eras remotas da pré-história. O Enuma Elish é uma das histórias mais antiga já encontradas. Ela fala sobre a criação dos deuses, do mundo e da humanidade. Essas histórias foram copiadas inúmeras vezes no decorrer de milhares de anos e em muitas delas estão as raízes dos mitos bíblicos e de vários outros sistemas teológicos como as mitologias grega e egípcia.


O nome "Enuma Elish" faz referência às primeiras palavras do texto que são "Quando nas Alturas".

  O Mito

Tábua I

O mito começa da seguinte maneira: "Quando, nas alturas, os céus ainda não tinham nome,e a terra abaixo não havia ainda sido nomeada, existiu o Abzu, o pai da Criação, E existiu Tiamat, o Oceano Primordial, Útero do Universo, Mãe de Todos."

Abzu sempre foi relacionado às águas doces, principalmente as subterrâneas (Ab=distante, su=água) e, as fontes de onde brotavam águas subterrâneas eram reconhecidas como a manifestação do grande Abzu que está abaixo de tudo.

Tiamat era relacionada com as águas turbulentas do oceano e era representada como uma serpente marinha ou um dragão. Ela é o símbolo do Caos Primordial e separação inicial entre ela e Apsu simbolizavam a inércia daquele estado primitivo do ser. "Tiamat" significa "Oceano".

Quando o movimento inicial aconteceu, as águas de Apsu e Tiamat se misturaram e, o deus Lahmu e sua contraparte feminina, Lahamu, foram criados nos domínios celestiais e foram chamados à existência.

Eras se passaram e Lahmu e Lahamu geraram dois filhos: Anshar e sua irmã Kishar. Anshar e Kishar geraram Anu e sua irmã Antu.  Anu e Antu geraram Ea.

Ea / Enki
Ea (também conhecido como Enki ou Nundimmud) era um dos principais deuses da mitologia mesopotâmica. Quando nasceu foi descrito como o "senhor da sabedoria, maior que seus ancestrais e muito mais forte que Anshar."

Então, todos esses deuses viviam na anarquia  e suas agitações e festas começaram a perturbar seus criadores Abzu e Tiamat e causaram distúrbios em Anduruna (como era chamado o lugar onde os deuses viviam antes da criação do mundo).

Embora os nervos dos dois deuses ancestrais estivessem abalados, a princípio eles tentaram suportar as atitudes irresponsáveis de seus filhos. Porém, chegou um momento em que  Abzu não suportou mais e planejou destruir seus filhos. Ele chamou seu ministro Mummu e os dois foram até Tiamat para falar sobre como acabar com tudo aquilo. Mas Tiamat não suportou a ideia de matar seus próprios filhos. Ela entristeceu-se com as ideias de seu esposo e disse-lhe que eles deviam se conformar com as atitudes dos filhos e não matá-los. Então, Mummu aconselhou Abzu e os dois saíram da presença de Tiamat e foram fazer seus planos longe dela.

Mas Ea ficou sabendo que seu pai planejava matar a ele e seus irmãos e se adiantou. Ele criou um encantamento e o jogou nas águas de Abzu, fazendo-o dormir e o matou para depois ele aprisionar Mummu. No corpo enorme de Abzu ele fez usa casa e nela descansou enquanto segurava as correntes de Mummu firmemente em suas mãos. Mais tarde, quando o mundo fosse criado, o Abzu se tornaria o submundo para onde os mortos iam e de onde brotavam as águas doces e ficaria abaixo da terra. E, como Ea havia tornado-se senhor de Abzu, ele era também o senhor das águas doces e por isso era representado com dois rios saindo dos ombros onde nadavam peixes de água doce.

Bel-Marduk
Então, em Abzu, Ea e sua esposa Damkina geraram um filho e o chamaram Marduk.

Desde seu nascimento, Marduk fora o mais poderoso e fantástico entre todos os deuses e cresceu rapidamente amamentado por Damkina. Ele tinha quatro olhos e quatro orelhas, seus olhos fulguravam com um brilho cegante, era impossível compreendê-lo com a mente, ele era superior a todos os seus irmãos ancestrais, ele era o deus- sol, sua aura aterrorizante equivalia à de dez deuses, sua língua era de fogo e seus braços e pernas eram incrivelmente fortes.

Anu criou os quatro ventos (Norte, Sul, Leste e Oeste) e os deu de presente a Marduk e a perturbação em Tiamat cresceu terrivelmente.

Os deuses mandaram uma mensagem a ela provocando-a e chamando-a para a guerra, pois, depois do nascimento de Marduk, eles sabiam que podiam tornar-se independentes da deusa-mãe. Eles disseram na mensagem que Tiamat era covarde, pois seu esposo Abzu havia sido assassinado e ela simplesmente ficara em silêncio. Ele s queriam que ela se levantasse e fizesse guerra, senão suas atitudes tornariam-se cada vez mais desordeiras até que ela não aguentasse mais.

Tiamat aceitou a provocação e vários deuses ficaram ao seu lado. Ela convocou um exército de terríveis criaturas monstruosas. Sua aliada, a deusa Hubur, "aquela que dá forma às coisas" fabricou armas invencíveis de guerra e criou "serpentes gigantes de dentes afiados e presas impiedosas com veneno no lugar de sangue e as revestiu de terror." Ela criou a "Hidra, o Dragão, o Herói Cabeludo, o Grande Demônio, o Cão Selvagem e o Homem-Escorpião, demônios ferozes, o Homem-Peixe e o Homem-Touro. Eles portavam armas cruéis e não temiam a luta. Além disso Tiamat fez onze monstros." Para ser o comandante esse exército infernal ela nomeou seu novo esposo, Kingu, a quem ela própria havia gerado, para ser o maior entre os Anunnaki ("aqueles que desceram do céu para a terra", ou seja os deuses). Ela lhe deu as Tábuas do Destino que antes pertenciam a Anu e ele adquiriu imenso poder entre seus semelhantes.

Tábua II

Tiamat havia reunido suas tropas e Ea fazia o mesmo quando percebeu o imenso poder que a grande Mãe havia reunido e decidiu acalmar-se e ir falar com Anshar, pai de seu pai para pedir aconselhamento. Anshar falou que ele deveria ir até Tiamat e matá-la do mesmo modo como matara Abzu, usando seu encantamento.

Ea foi até ela enquanto ela dormia, mas ao se aproximar ele teve medo diante da figura monstruosa dela e das criaturas que a rodeavam. Ele recuou e foi falar novamente com Anshar e disse que o poder dela era demais para ele e que mandasse outro para matá-la. Então, Anshar, decepcionado com seu neto, mandou Anu, seu filho, mas aconteceu o mesmo, quando ele se aproximou ele a temeu e recuou dizendo a seu pai que o poder de Tiamat era muito imenso para ele.

Assim, Ea teve a ideia de mandar seu filho, Marduk, o mais poderoso de todos, para a batalha. E se ele não conseguisse derrotá-la, ninguém mais poderia.

Marduk aceitou a missão, mas impôs uma condição. Ele foi até a assembleia dos grandes deuses e falou na presença de Anshar que, antes de enfrentar a inimiga, ele deveria ser nomeado rei e senhor de todos os deuses: "Se hei de tornar-me vosso Vingador, se dei de derrotar Tiamat, convoca uma reunião e deixa que eu decrete os destinos em vosso lugar."
Tiamat representada como uma serpente gigante carregando seu exercito nas costas.


Tábua III

Depois de ouvir a proposta, Anshar mandou seu ministro, Gaga para chamar Lahmu e Lahamu para que comparecessem à assembleia que decidiria o destino de Marduk. Eles ficaram surpresos e assustados, pois não sabiam do que estava acontecendo partiram para se reunir com os outros deuses para decidir o que fazer. (Esta tábua é extremamente repetitiva retomando vários trechos das tábuas anteriores para descrever as falas de uns deuses ao relatar a situação aos outros.)

Tábua IV

Na assembleia, os grandes deuses comeram e beberam até que seus ânimos ficaram alegres e eles deram a Marduk o direito de comandar todos os deuses e ele se tornou seu Rei. Eles lhe presentaram com armas terríveis e lhe disseram: "Vai e derrota Tiamat. Deixa que os ventos carreguem seu sangue para trazer-nos a notícia".  E Marduk partiu na estrada para Tiamat.

No caminho ele construiu um arco e flechas. Fabricou uma rede para aprisionar Tiamat e criou sete ventos a partir dos quatro que Anu havia lhe dado. Sua arma mais poderosa era chamada de a "Tempestade Diluviana". Ele cavalgava uma carruagem terrível puxada por quatro terríveis cavalos de dentes afiados e venenosos. Em sua cabeça ele usava uma aura de horror.
Marduk atacando Tiamat com seu arco e flechas.

Quando aproximou-se dela, Marduk, por um momento, intimidou-se com seu exercito e seu comandante, Kingu. Tiamat proferiu maldições e mentiras, mas ele devolveu as provocações e a fez levantar em fúria, e foi nesse momento que ela expôs sua barriga. Marduk atirou uma flecha e acertou seu alvo. Depois ele jogou sua rede e dilacerou as entranhas dela. Quando Tiamat caiu ele pisou sobre seu corpo e esmagou seu crânio com sua poderosa clava.

Quando viram sua criadora derrotada, os soldados de Tiamat entraram em pânico e tentaram fugir, mas Marduk os capturou em sua rede junto a Kingu do qual ele retirou as Tábuas do Destino que não eram suas por direito.
Tiamat e Marduk

Tábua V

Esta tábua narra o que Marduk fez depois de derrotar Tiamat.

Ele criou estâncias celestes para os deuses que seriam os lugares em que eles habitariam nos céus, possivelmente referindo-se às constelações zodiacais. Depois ele determinou os movimentos dos astros que serviriam para marcar o tempo. Ele gerou a deusa Nannar (a Lua) e a nomeou guardiã da noite dando-lhe instruções sobre as diferentes fases da lua que ela mostraria a cada semana para marcar a passagem dos meses. Ele estabeleceu a estância de Nibiru que era o local marcado no céu noturno onde o sol nascia no solstício de verão.

Marduk dividiu o corpo de Tiamat. Ele esticou sua pele e fez o teto do céu diurno. Da espuma de Tiamat ele fez as nuvens, de sua saliva ele fez as névoas, com seus seios ele criou altas montanhas, de suas orbitas vazias ele fez nascerem os rios Tigre e Eufrates, escavou seu corpo para fazer os leitos dos rios, etc. Ele criou os decretos e as leis da natureza, trazendo à existência o mundo como conhecemos. Depois ele colocou as Tábuas dos destinos nas mãos de Ea e fundou a Babilônia para ser um local de descanso para os deuses.

Tábua VI

Marduk dividiu os deuses em dois grupos, os deuses do céu e os deuses do submundo, ou seja, de Abzu.

Depois de haver criado todas as coisas, Marduk ouviu os deuses reclamarem pois aquele novo mundo exigiria muita labuta e muito trabalho. Então ele resolveu aliviar seus irmãos dos esforços do mundo criando o homem.

Embora a ideia de criar o Lulu (trabalhador primitivo) tenha sido de Marduk, ele não o fez com suas próprias mãos, mas ordenou que outros deuses levassem a cabo a empreitada.

No Enuma Elish é dito que Marduk ordenou que Kingu fosse morto e que de seus restos fosse fabricado o Adamu, o primeiro homem. Ea, utilizando da astúcia do próprio Marduk confeccionou criatura humana. Porém, o processo mais detalhado de criação do ser humano pode ser encontrado no texto do Atrahasis.

Depois os deuses começam a reafirmar a superioridade de Marduk e começam a recitar seus cinquenta nomes e seus significados.

Tábua VII

A última tábua do Enuma Elish  complementa os cinquenta nomes de Marduk numa espécie de oração dos deuses para seu deus, exaltando exaustivamente a figura de Marduk finalizando o conto das Sete Tábuas da Criação.

O fato de haver inúmeras repetições no texto original indica que o mito completo era recitado ritualmente do início até o fim em determinadas cerimônias como uma homenagem a Marduk.

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